Durante anos, a inteligência artificial (IA) no varejo foi tratada como promessa. Experimentos isolados, pilotos de personalização e automações pontuais dominaram o discurso de líderes, gerentes e tomadores de decisões. No entanto, o último National Retail Federation (NRF), maior feira de varejo internacional no mercado, realizado na primeira quinzena de janeiro, mostrou a todos que essa etapa ficou para trás. O segmento entrou em uma fase mais madura, integrada diretamente com uma estratégia omnichannel, fazendo com que, aos poucos, a IA deixe de ser um um diferencial e passa a se tornar parte operacional de negócios.
Os estandes e palestras em Nova Iorque deixaram claro que a transformação não está mais em “testar tecnologia” para soluções sob medida e para aspectos laterais de negócios, mas sim em conectar dados, processos e decisões em escala, em um cenário de custos elevados, consumidores exigentes e cadeias de suprimento cada vez mais complexas. Em um contexto de oportunidades menos evidentes e marcas cada vez mais ávidas por reter clientes, a inteligência artificial apresenta-se como uma metodologia integrada para reduzir fricções, aumentar a previsibilidade e sustentar o crescimento.
Não se trata de apenas adotar soluções prontas para impulsionar a produtividade e flexibilizar o atendimento, mas sim de construir toda uma percepção no varejo a respeito da importância de tecnologias abertas e arquiteturas colaborativas. Poderoso catalisador da inovação, o open source têm sido essencial para empresas de diferentes tamanhos aumentaram sua capacidade de adaptação com as novas tendências do mercado, por meio de estruturas mais flexíveis, ágeis e, principalmente, resilientes.
Inteligência artificial: da teoria à prática
Para muitos, esse salto para o ecossistema de inteligência artificial pode parecer uma forçação de barra, principalmente para Pequenas, Média e Microempresas que, raramente, dispõem de margem no orçamento para realizar investimentos em tecnologia de médio e curto prazo, no entanto, um levantamento recente da NVIDIA apontar para um cenário diversos. Lançado no começo de janeiro, o State of AI in Retail and CPG indica que mais de 58% do ecossistema global de negócios utiliza ativamente soluções, ferramentas ou metodologias de IA, um salto de 16 por cento em relação à pesquisa passada.
Ainda que exista um gap de 21 pontos entre as formas de uso da tecnologia para negócios com mais de 1 mil colaboradores (68%) e micro, médias e pequenas empresas (49%), a IA se tornou unânime para alavancar receitas, reduzir custos operacionais e aumentar eficiência operacional e a produtividade de times em diferentes frentes do segmento. Seja para o ecossistema cadeia de suprimentos, back office ou lojas físicas, 91% dos tomadores de decisões concordam em que investir em inteligência artificial está nos planos para 2026 por meio de soluções que tragam resultados ágeis e concretos.
Como ressalta o Guia de Tendências do Sebrae, organizado especialmente para o NRF, na realidade brasileira esses investimentos em tecnologia se traduzem: na adoção da IA agêntica (também conhecida como agentes de IA); na personalização da jornada da compra de clientes em multicanais; na antecipação de gargalos operacionais buscando não só evitar o desabastecimento de estoques, como também integração das operações em múltiplos canais de atuação e; principalmente, no aumento da segurança de operações, seja no e-commerce, em marketplaces ou ainda no atendimento presencial nas lojinhas.
De forma geral, o documento suscita que o futuro da área representa uma aproximação decisiva da tecnologia do core business do varejo. Observando os benefícios, os casos de sucesso e os encaminhamentos para este ano, fica claro que a IA, bem como outras metodologias-irmãs como a automação e a modernização de infraestrutura técnica, serão indispensáveis para o sucesso de negócios e na melhora do atendimento de consumidores. Como o próprio relatório sublinha, não se trata, de delegar à IA e às novas metodologias toda a criatividade, inovação e engenhosidade do segmento, mas sim fazer uso dessas soluções para que o human touch no atendimento, nas conversas e no trato direto com o público seja mais assertivo e decisivo.
Código aberto: um investimento de inteligência no varejo
Por mais que a tecnologia apresente benefícios inquestionáveis e duradouros para diferentes tipos de negócios, no Brasil, organizações ainda enfrentam obstáculos na sua adoção. De acordo com um relatório recente da Fecomércio, disponibilizado na coluna de Kelly Carvalho, assessora do órgão, mais do que um problema de custo elevado de implementação (36%), a maior barreira vivida por empresas é entrave cultural, ou seja, não dispõem de um ambiente preparado (processos, gestão de pessoas, capacitação de profissionais, validação de resultados) para absorver essas mudanças ágeis.
Neste cenário de desafios, o código aberto se apresenta como um grande aliado para empresas realizarem o on-boarding na IA e outras tecnologias, de maneira progressiva, descomplicada e a um baixo custo de aquisição. Seu diferencial é oferecer centenas de milhares de softwares, cursos e capacitações gratuitas para organizações irem construindo a sua própria base tecnológica. Mais do que uma maneira simples de mergulhar no vasto mundo da tecnologia, a metodologia aberta se apoia sobre uma cultura colaborativa universal, na qual cada indivíduo contribui para um bem maior. Também conhecido como pay it forward, o princípio tem guiado a comunidade a alavancar a inovação nos últimos 40 anos.
Essa abordagem colaborativa permite que equipes ajustem modelos de IA, personalizem fluxos e criem diferenciais competitivos com rapidez, especialmente quando combinada com dados próprios de clientes, estoque e comportamento, algo essencial diante das demandas por personalização contínua e logística integrada discutidas na NRF 2026. Mas falar é fácil, difícil é colocar todas essas ideias em prática. Por isso, dois casos de sucesso merecem nossa atenção para entender o potencial desse negócio:
Walmart: Escalando IA com arquiteturas abertas
O Walmart provou que o código aberto pode se tornar um pilar estratégico em operações de escala global. A empresa adotou tecnologias abertas como o Hadoop, o Spark e uma arquitetura de Kubernetes para construir e escalar seus sistemas de dados e inteligência artificial, integrando milhões de transações, estoques e interações entre canais físicos e digitais em tempo real
Essa flexibilidade permitiu ao Walmart não só abarcar omnichannel como padrão operacional, mas também refinar previsões de demanda, otimizar rotas logísticas e personalizar experiências em escala, transformando assim todo o seu ecossistema produtivo. Em outras palavras, graças às soluções e metodologias open source, a gigante do varejo internacional pode aprimorar seu planejando em solo americano e projetar sua expansão para diferentes territórios nas Américas e, principalmente, em outros mercados com hábitos, culturas e economias próprias
Magazine Luiza: open source como alavanca de crescimento no Brasil
No Brasil, o Magazine Luiza exemplifica como varejistas podem incorporar IA com base em tecnologias abertas para adaptar-se à realidade local. Ao construir sua plataforma tecnológica sobre metodologias open source, integrando dados de lojas físicas, marketplace e canais digitais, a empresa ganhou agilidade para ajustar fluxos de pedidos, antecipar gargalos logísticos e personalizar ofertas com base em comportamento real de compra de brasileiros.
Essa capacidade de conectar dados e processos internamente traduz-se em maior eficiência operacional, uma resposta clara aos desafios nacionais de distância geográfica e diversidade regional, enfrentados por lojistas de diferentes segmentos e, mais importante, apresenta-se como uma base estratégica para planejar a jornada digital da companhia, seja quando implementar novidades de inteligência artificial e IA agêntica ou apenas na automatização de respostas, scripts e outras tecnologias de impacto para a companhia.
Varejo e código aberto: um futuro da IA à vista
Diante desse cenário, fica evidente que a inteligência artificial deixou de ser uma tendência futurista para se consolidar como um componente estrutural do varejo contemporâneo. Para além de ganhos pontuais em eficiência e escala, a IA tornou-se um elo entre dados, processos e decisões, permitindo que empresas respondam com maior precisão às demandas de consumidores cada vez mais conectados e exigentes. A maturidade apontada pelo NRF, por exemplo, reforça que o diferencial competitivo não está apenas na adoção da tecnologia, mas sim na sua integração profunda ao core do negócio, respeitando contextos locais, escalas operacionais e, sobretudo, preservando o papel humano na construção de experiências relevantes para clientes.
Nesse movimento de protagonismo da tecnologia, o open source se afirma como um aliado decisivo de democratização e sustentabilidade da inovação no varejo. Ao derrubar barreiras de custo, acelerar o aprendizado organizacional e fomentar uma cultura colaborativa pautada pela inovação, colaboração e segurança, as soluções abertas permitem que empresas de todos os portes avancem de forma progressiva na jornada de transformação digital. Em suma, investir em código aberto deixou de ser uma escolha técnica e hoje se tornou uma decisão estratégica de longo prazo para um varejo mais resiliente, adaptável e centrado no cliente, seja no mercado internacional ou em nosso quintal de grandes oportunidades.
*Fabiano Assis é diretor comercial para a Red Hat Brasil


